Poema de José Luís Tinoco

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o Mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera… do futuro.

Quero escrever

um texto sem palavras

porque as palavras não chegam

para dizer o milagre da vida

o mistério do homem.

Quero escrever

mesmo não sabendo dizer

os gemidos do coração.

E porque escrevo?

Porque não cabe em mim.

Cada vez que cansado paro

E exausto olho o passado

Amedronta-me, assusta-me

 

 

Retomando a marcha sem mais

Fujo do que vivi

Fujo do meu passado.

 

Eu não sou do passado

Não lhe pertenço a ele

É ele quem me pertence!

 

Voltando-me, então, enfrento

O medo de muitas horas

Que se desfaz vencido pois

 

É ele quem me pertence!

“Quem trupa a essa porta?

Quem trupa ou quem `stá aí?

Sejam cravos, sejam rosas,

minha porta eu abri.”

 

 

Às vezes quero que o tempo corra sempre sem parar. Hoje, porém, que pare e desande… É um desejo infantil, este que agora alimento, mas a dor deste momento tão forte e invencível faz-me perder a coragem de avançar como outrora. É que, continuando a amar, sofro pelo que fiz. É que, continuando a amar, sofro por quem feri. É que, continuando a amar, desejo o bem de quem amo. É que, continuando a amar, sofro por não o manifestar. Por isso desejaria ver o tempo desandar até àquele momento em que tudo pudesse recomeçar e avançar doutro jeito de modo que agora pudesse amar e manifestar sem receio de magoar, de estorvar o caminho.

Infantilidade, eu sei… mas que bom seria recomeçar!

 

Retrocessos

Quando uma porta se abre corro para ela… inocente. Cansado da corria refreio o ritmo temendo não aguentar e, às portas da porta, extenuado pelo esforço, sem força para mais, assisto impotente ao solene fechar da mesma; desesperado lanço um olhar sincero, mais forte que um grito, como se trupando estivesse… nem um sinal. Apenas aquela voz automática, gravada de uma vez para sempre, que apenas repete frases frias ornadas de grande educação e redobrado cuidado. Enfim. Como a voz dum comerciante que, detestando o freguês mas não querendo perder a boa fama, repete calmamente uma cuidada desculpa que justifique o logro da propaganda feita que agora é reclamada.

Porquê? Porquê quando já tudo parece resolvido: apenas uma referência e, embora saiba que nem trupando, corro para a porta.

Raio!

Porquê?

Porque teimo em infligir-me tal dor e sofrimento? Porque teimo em entrar em portas trancadas? Porque teimo em forçar trincos oxidados se já não falamos a mesma língua…

  Então porque me dói?

Dói

Não sei explicar porquê

Não quero que me perguntes

Não quero responder

Dói

 

Dói

Mesmo não mexendo

Pior quando mexo

Melhor esquecer

Dói

 

Dói

Há razões para doer

Há razões para não doer

Para tudo há razões

Dói

 

Dói

Estou farto de razões

Estou farto de contradições

Entre a razão e o coração que

Dói

 

Dói

Eu sei que dói

Dói muito

Espero que passe

Dói

 

Dói

Sei explicar porquê

Não quero que me perguntes

Não quero responder porque

Dói

«Tomai, todos, e bebei:

este é o cálice do meu Sangue,

o Sangue da nova e eterna aliança,

que será derramado por vós e por todos,

para remissão dos pecados».

Porque será difícil executar o que projectamos?

Porque será difícil definir o que sentimos?

Porque será difícil não sentir o que projectamos?

 

Sinto-me quase como uma máquina sem livro de instruções

Tudo acontece… e tantas coisas automaticamente

E eu, protagonista, sem nada perceber.

 

Hoje…

Hoje foi assim.

Senti-me estranho dentro de mim.

 

Como se não fosse eu

Eu não me reconheci

E todos me reconheceram.

 

Nem todos

Nem todos reconheci

Nem todos conheci

Nem todos me REconheceram.

 

Sou o mesmo e já não sou

Não sou o que era e sou o que fui

Ainda confuso

Ainda não fui capaz.

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