Cada vez que cansado paro

E exausto olho o passado

Amedronta-me, assusta-me

 

 

Retomando a marcha sem mais

Fujo do que vivi

Fujo do meu passado.

 

Eu não sou do passado

Não lhe pertenço a ele

É ele quem me pertence!

 

Voltando-me, então, enfrento

O medo de muitas horas

Que se desfaz vencido pois

 

É ele quem me pertence!

“Quem trupa a essa porta?

Quem trupa ou quem `stá aí?

Sejam cravos, sejam rosas,

minha porta eu abri.”

 

 

Às vezes quero que o tempo corra sempre sem parar. Hoje, porém, que pare e desande… É um desejo infantil, este que agora alimento, mas a dor deste momento tão forte e invencível faz-me perder a coragem de avançar como outrora. É que, continuando a amar, sofro pelo que fiz. É que, continuando a amar, sofro por quem feri. É que, continuando a amar, desejo o bem de quem amo. É que, continuando a amar, sofro por não o manifestar. Por isso desejaria ver o tempo desandar até àquele momento em que tudo pudesse recomeçar e avançar doutro jeito de modo que agora pudesse amar e manifestar sem receio de magoar, de estorvar o caminho.

Infantilidade, eu sei… mas que bom seria recomeçar!

 

Retrocessos

Quando uma porta se abre corro para ela… inocente. Cansado da corria refreio o ritmo temendo não aguentar e, às portas da porta, extenuado pelo esforço, sem força para mais, assisto impotente ao solene fechar da mesma; desesperado lanço um olhar sincero, mais forte que um grito, como se trupando estivesse… nem um sinal. Apenas aquela voz automática, gravada de uma vez para sempre, que apenas repete frases frias ornadas de grande educação e redobrado cuidado. Enfim. Como a voz dum comerciante que, detestando o freguês mas não querendo perder a boa fama, repete calmamente uma cuidada desculpa que justifique o logro da propaganda feita que agora é reclamada.

Porquê? Porquê quando já tudo parece resolvido: apenas uma referência e, embora saiba que nem trupando, corro para a porta.

Raio!

Porquê?

Porque teimo em infligir-me tal dor e sofrimento? Porque teimo em entrar em portas trancadas? Porque teimo em forçar trincos oxidados se já não falamos a mesma língua…

  Então porque me dói?

Dói

Não sei explicar porquê

Não quero que me perguntes

Não quero responder

Dói

 

Dói

Mesmo não mexendo

Pior quando mexo

Melhor esquecer

Dói

 

Dói

Há razões para doer

Há razões para não doer

Para tudo há razões

Dói

 

Dói

Estou farto de razões

Estou farto de contradições

Entre a razão e o coração que

Dói

 

Dói

Eu sei que dói

Dói muito

Espero que passe

Dói

 

Dói

Sei explicar porquê

Não quero que me perguntes

Não quero responder porque

Dói

«Tomai, todos, e bebei:

este é o cálice do meu Sangue,

o Sangue da nova e eterna aliança,

que será derramado por vós e por todos,

para remissão dos pecados».

Porque será difícil executar o que projectamos?

Porque será difícil definir o que sentimos?

Porque será difícil não sentir o que projectamos?

 

Sinto-me quase como uma máquina sem livro de instruções

Tudo acontece… e tantas coisas automaticamente

E eu, protagonista, sem nada perceber.

 

Hoje…

Hoje foi assim.

Senti-me estranho dentro de mim.

 

Como se não fosse eu

Eu não me reconheci

E todos me reconheceram.

 

Nem todos

Nem todos reconheci

Nem todos conheci

Nem todos me REconheceram.

 

Sou o mesmo e já não sou

Não sou o que era e sou o que fui

Ainda confuso

Ainda não fui capaz.

Cântico                                          Is 38, 10-14.17-20

Angústias dum moribundo,

alegria da cura

Eu sou o que vive e estava morto

E tenho as chaves da morte (Ap 1, 17.18).

Eu disse: «Em meio da vida, vou descer às portas da morte, *

  privado do resto dos meus anos».

Eu disse: «Não mais verei o Senhor na terra dos vivos, *

  não verei mais ninguém entre os habitantes do mundo».

Para longe de mim foi arrancada a minha morada, *

  como tenda de pastores.

Como tecelão, eu tecia a minha vida, *

  mas cortaram-me a trama.

Dia e noite sou consumido *

  e grito ao amanhecer.

Como um leão que dilacera os meus ossos, *

  assim sou consumido dia e noite.

Grito como a andorinha *

  e gemo como a pomba.

Cansam-se meus olhos de olhar para o alto. *

  Socorrei-me, Senhor.

Por Vós, Senhor, viverá o meu espírito, *

  e o meu sofrimento se converterá em paz.

Preservastes a minha alma da corrupção da morte, *

  perdoastes todos os meus pecados.

Nem a morada dos mortos Vos louvará, *

  nem a morte Vos dará glória.

Para quem desce ao túmulo, *

  acaba a esperança na vossa fidelidade.

Só os vivos podem louvar-Vos, *

  como eu Vos louvo hoje.

O pai dará a conhecer aos seus filhos *

  a vossa fidelidade.

Senhor, vinde em nosso auxílio, *

  e cantaremos nossos salmos,

todos os dias da nossa vida, *

      no templo do Senhor.

Sorriso nos lábios

Passo apressado

Trabalho entre mãos

Tudo parece normal.

 

Quem vê acha bem

Não acho bem nem mal

Pois evito procurar

Com medo de encontrar

 

Assobio, rio

Evito, não penso

E ando, andante

Finjo que tudo é normal.

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